sábado, 11 de maio de 2013

“O FASCINIO DO PODER”


“O FASCINIO DO PODER”             Pastor Barbosa Neto


Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapassar o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tivesse recebido?” ( I Coríntios 4.6-7).

O ser humano encontra-se contaminado pelo vírus da grandeza. Ninguém está imune a esse agente contagioso e são poucos, pouquíssimos, aqueles que conseguem soro satisfatório para neutralizar seus efeitos letais. A necessidade de prestígio tem financiado táticas ardilosas de distinção para levar muita gente encurtada no auge da fama, do realce, do aparecer... Isto é muito sério!...

Ninguém gosta do ostracismo nem do lugar comum. A burguesia é vulgar demais para o estilo elevado da alta nobreza. Todos nós sofremos com os micróbios invisíveis deste macro dimensionamento, pois há uma tendência inata na raça humana pelo pódio.

O pecado da espécie adâmica é assinalado por um desejo teomaníaco de consideração. No fundo do desempenho reside uma vontade de ser reconhecido. Mesmo a atuação mais ingênua corre o risco da arrogância. A humildade pode ser uma máscara para ocultar os sentimentos disfarçados da importância humana. Pensem nisso. Todos os dias eu enfrento algum anseio de elevação ou alguma carência de reconhecimento. O pecado me deixou obcecado pelo quesito da estima. Esse é um dos quocientes que mede o meu valor perante a opinião pública.

Todos nós somos pessoas carentes, por isso, os elogios se prestam para negociar com a nossa estima no mercado da apreciação. Quando alguém fala bem de mim, percebo que estou em perigo! Sou muito vulnerável a esse jogo do poder que me faz reconhecido diante da plateia. A minha valorização no conceito dos outros é uma tática que me mantém escravo de um bom julgamento. Anotem bem isso.

O apóstolo Paulo indaga: “Pois que é que te faz sobressair?”. Se você e eu somos pessoas únicas, essa singularidade é uma dádiva de Deus. Todos nós somos o resultado da seleção divina, e ninguém consegue ir além do que lhe foi concedido. Vejamos como João Batista vê esse ponto: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dado” (João 3.27).

Ora, se alguém consegue se destacar nas atividades do Reino de Deus, deve esse realce tão-somente à graça. Tudo o que somos como filhos de Deus é consequência dessa graça imerecida! A pergunta do apóstolo é: o que você tem que não tenha ganhado?... E o rei Davi responde: “Riquezas e glórias vêm de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e poder; contigo está o engrandecer e a tudo dar força” (I Crônicas 29.12). Que maravilha!

Deus é a causa primária de todas as coisas, mas Ele não é a origem do pecado. A vontade é um atributo natural do ser humano, entretanto o desejo de ser como Deus é uma aberração desse atributo. Deus fez Adão e Eva como seres humanos à sua semelhança, sendo assim, não havia probabilidade de o gênero humano ser Deus. Esse desejo de ser como Deus é a fonte da rebeldia pecaminosa.

A contaminação do pecado desandou com a raça adâmica. Somos uma espécie rebelada e viciada pelo poder. O deslumbramento por grandeza, distinção e poder é uma como cachaça maluca na existência de cada componente da humanidade. Observem o exemplo do rei Tiro: “Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Visto que se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares, e não pasas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus” (Ezequiel 28.2).

Nós não gostamos da inviabilidade. Ser uma pessoa insignificante é complicado para a valorização da personalidade. Viver no camarote escondido da plateia é algo muito difícil para quem busca os aplausos. Todos nós gostamos dos holofotes e ninguém vive sem algum espectador! Ser um zé-ninguém , um zero à esquerda ou uma sombra no escuro é qualquer coisa insuportável para uma espécie interesseira. Nós gostamos de nos exibir. Sei que estou sendo severo demais em minhas palavras, mas elas exalam verdades! Difícil é aceitá-las, bem o sei! Mas deixemos que elas toquem as nossas feridas. Remédio amargo sempre é o melhor e mais eficiente, já nos pontifica os mais antigos.

A religião – o termo é este mesmo – é um terreno fértil para essa casta que gosta de ostentar suas qualidades. Vejamos o que registrou Lucas, o médico amado: “O fariseu, posto de pé, orava de si para si mesmo desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano” (Lucas 18.11). Aqui está outra prova desta atitude enfatuada de excepcionalidade. Não é coisa natural o afastamento natural voluntário do palco. Temos muita necessidade de nos apresentar no show da vida  e é extremamente complexo tolerar a discrição. Viver no anonimato é uma arte que só as pessoas que trazem as estigmas da cruz poderão suportar!

Nesse mundo das apreciações é assaz importante você se sentir importante quando alguém se importa com a sua importância! Mas aí se encontra o perigo. Herodes foi alvejado quando “o povo clamava: É voz de um deus, e não de homem! No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não haver dado glória a Deus, e, comido de vermes, expirou”(Atos 12.22-23). A ‘voz do povo’, não é a voz de Deus! Muito cuidado! Diz a Palavra que, “no mesmo instante” os bichos tomaram conta da sua carcaça. Guarde esta solene lição no mais profundo do seu coração!

Um homem mortal que tenta se passar por Deus não tem alternativa, senão se tornar gororoba de gusano. O pecado incha o ego a tal ponto que não há estrutura capaz de conter uma soberba como essa. Nunca se coloque no lugar que Deus não lhe proporciona sustentáculo, por simples vaidade!  Não nos esqueçamos, jamais, da suficiência das Sagradas Escrituras, para nos dar amparo para os anseios do nosso coração! O egoísmo é a obesidade dos desejos presunçosos. Não nos esqueçamos disso, jamais!

O problema é que o poder egoísta, muitas vezes, vem disfarçado de simplicidade e o adjetivamos, por nossa livre recreação,  de chamada vocacional vinda do Senhor! A grande ameaça do poder não é sua badalação, mas a sua sutileza. Por trás de muitos gestos e atitudes aparentemente inocentes e espirituais, reside uma grande necessidade de vanglória. Paulo indaga: “E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (I Coríntios 4.7).

Jesus nunca aceitou ser um sensacionalista nem fez qualquer coisa com o objetivo de ser famoso. Quando realizava um sinal maravilhoso, normalmente, pedia às pessoas beneficiadas que não divulgassem o acontecimento. Por exemplo, na cura de um leproso: “Ordenou-lheJesus que a ninguém o dissesse, mas vai, disse, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o sacrifício que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo”. (Lucas 5.14). Jesus trabalhava em silêncio sem qualquer propaganda. Ele não procurava promover-se por meio de seu ministério, mas cuidava das pessoas com o fim de torná-las inteiras, sendo tudo feito para a glória do Pai. A obsessão pelo poder na liderança cristã é uma afronta ao estilo de servo, encarnado por Jesus. Ele mesmo disse: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10.45).           

Além das sutilezas do poder das realizações e da imagem ainda temos o lance do poder espiritual. É muito comum hoje em dia a fé ser usada como um instrumento de dominação. O moderno empowerment da fé, isto é, a atribuição de poder inerente à fé é um dos grandes contratempos da saúde emocional da igreja contemporânea. A fé na fé é um deslocamento perigoso que se tem dado à questão do poder. Sabemos, biblicamente, que o poder é um atributo de Deus. Não há poder na fé, assim como não há poder na lâmpada. A energia está no gerador e a lâmpada revela o poder do motor. O poder espiritual é a ponte de relacionamento com Deus, onde a fé é conectada à fonte. Eis aqui o correto.

Muitas vezes nós queremos mostrar que somos pessoas de grande fé para recebermos o reconhecimento dos nossos observadores e pares. Com certeza é uma precipitação contarmos os feitos de Deus realizados através de nossa instrumentalidade, uma vez que as pessoas têm tendência de pagar o cachê àqueles que são visíveis. É preciso muita cautela na divulgação dos sinais da fé, pois podemos embolsar a glória que pertence somente a Deus.

Ainda no terreno do poder espiritual podemos ganhar pontos pessoais quando tentamos exibir a humildade como predicado particular. Mas nada é mais falso do que uma humildade alardeada. Aquele ou aquela que pretende demonstrar a sua humildade acaba contaminando-a com a sua própria vaidade. A humildade é aquela qualidade que você a perde quando percebe que a tem. Toda exteriorização de humildade se constitui numa falência dessa virtude. A humildade está relacionada com a total dependência do homem para com Deus, por isso só Deus sabe quem é realmente submisso a Ele e dependente Dele. Muitos gostam de demonstrar algo que eles acham que é humildade, a fim de angariar créditos para sua pessoa.

Mas a cruz é o único meio capaz de despejar a intenção de poder. O poder é uma coisa fascinante para o ser humano, e nós queremos comprovar o nosso poder a qualquer custo. Li, certa vez, alhures, que “podemos falar interminavelmente sobre o fascínio do poder para o bem em oposição ao poder para o mal. Mas há muito tempo já se sabe que, seja qual for a motivação, o poder pessoal pode corromper, e a luta pelo poder em si mesmo quase sempre cria conflitos que provocam a destruição ou aniquilação de outrem”. É verdade.

Vejamos as palavras do salmista em sua profundidade: “Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus (Salmo 62.11). Deus falou apenas uma vez, mas ele ouviu duas! Precisamos ouvir muito bem a voz de Deus, que possamos estar cientes e conscientes que o poder pertence tão-somente a Deus! Que possamos aprender algumas lições nessas assertivas aqui expostas para que não nos deixemos envolver com o fascínio do poder!

Que no Senhor Deus nos abençoe, ricamente, em Nome de Jesus! Amém!         


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