sábado, 11 de maio de 2013

“A unção, de novo, e sua incrível dificuldade birrenta”


“A unção, de novo, e sua incrível dificuldade birrenta”
(Quorsum haec tam putida tendunt?)


A expressão entre parênteses acima é de Horácio antigo filósofo grego, que Erasmus Desiderius cita, colocando-a nos lábios murmurantes de ouvintes chocados, em seu clássico livro ‘Elogio da Loucura’, obra de fundo cômico que investindo contra o obscurantismo dogmático e a superstição generalizada alcançou notoriedade mundial.
Sua sátira acrimoniosa lançou feroz ataque também contra a igreja cristã de seu tempo, seus ensinamentos, crendices, ignorância e mundanismo característico de ‘tolos convencidos de que podem comprar não apenas todas as bênçãos e prazeres desta vida, como também o céu, depois da morte, e, por puro amor ao lucro imundo, os clérigos encorajam-nos em seus erros’1.
Os livros têm seus destinos, já disse alguém. E qual não é minha surpresa ao verificar a contemporaneidade do livro do humanista de Roterdã, que certamente goza do destino dos bons livros, que nos instigam, nos incomodam e nos obrigam a ir mais adiante.
Mas há daqueles, lá como cá, que não se adiantam, mesmo com os Livros, antes insistem ainda em dificuldades birrentas como a da unção, ela novamente, que vem abrir à força meus ouvidos pasmos fazendo minha boca murmurosa repetir: qual (quando) será o fim de semelhante necedade?
Mas birrenta como é, a unção sempre germina da ‘garganta profética’ de algum paladino desavisado (ou mal intencionado?), defendendo como de costume profetas, reverendos, santidades, ministros, bispos ou apóstolos (ainda não vencemos a ostentação e magnificência pomposa dos títulos eclesiásticos honoríficos) que por puro amor nem sempre pela igreja ou por Cristo valem-se das benesses de sua arrogada posição e condição ‘ungida’ corroborando o deslize embirrado da unção quase sempre para validar práticas e doutrinas estranhas ou escusar-se de comportamento pouco ético e bem distante da Sagrada Escritura (temos Livro!). Se não devemos generalizar, para sermos politicamente correto, reconhecemos exceções, entretanto exceções só confirmam a regra...
Se outrora uma ênfase na santificação exigia perfeição moral completa ou parcial também e principalmente desses ‘líderes ungidos’, hoje ‘um realizar excitante’ mesmo que moralmente comprometido é satisfatório. Se ‘ungidos especiais’ comprometem a sã doutrina, a dignidade humana, a ética entre seus pares, isso é sem importância, afinal eles fazem e acontecem. Será aceitável o comprometimento do preceito bíblico (o Livro de novo...), da decência e da moral frente a um pragmatismo eclesiástico utilitário? Parece que sim!
Dentro da tradição que pertenço ‘para ser pastor local, só era preciso ser reconhecido como tal na congregação e gozar de boa reputação. A congregação reconhecia o pastor com base nos dons que exercia... Não pensavam que a ordenação de uma pessoa proporcionava-lhe, de algum modo, a graça (unção especial) necessária para desempenhar seu ministério’2.
Diferente disso o intransigente ‘ungido intocável’, aquela bizarra autoridade espiritual suprema que imprime sucessivamente sua vontade e só a sua ambição sempre imposta pela pretensa unção divina, firma-se em meio a um verdadeiro ‘vedetismo pastoral’3. Nada mais estranho para uma democracia batista, onde ‘os indivíduos não se reduzem a objetos [lucrativos] para o poder [eclesiástico] constituído, mas são co-responsáveis e co-participantes desse poder, em forma de co-gestão’.
Textos como 1º Samuel 24.6; 1º Crônicas 16.22 e Salmo 105.15 são frequentemente citados e alardeados como base de sustentação para a unção especial de certos indivíduos.
Ureta falando sobre Unção do Espírito destaca que a expressão é pouco usada no Novo Testamento, entretanto:
No Antigo Testamento, a unção tinha uso restrito. Eram ungidos profetas, sacerdotes e reis, numa espécie de ato consagratório para uma atividade especifica. “Com esse rito [a unção], o ungido é colocado à parte, feito participante da esfera divina. Pode apresentar-se diante de Deus em nome do povo, e atuar como um representante de Deus 4

Eichrodt, no prólogo à quinta edição revisada de seu livro Teologia do Antigo Testamento realça sumariamente que os escritos do AT dão testemunho “não de um corpo doutrinal perfeito, senão de uma realidade divina que vai se revelando na história”5 e esse avanço sendo acatado por Ureta o leva a destacar considerando o NT, que com relação aos crentes (2ª Coríntios 1.21; 1ª João 2.20,27) a unção diversamente do AT não se restringe mais a alguns poucos escolhidos. Ladd esclarece que
Este novo aspecto da ação interior do Espírito é contrastado com a obra do Espírito na antiga dispensação. A obra mais notável do Espírito, no Antigo Testamento, foi um “ministério oficial”, i.é., o Espírito dotou certas pessoas, porque elas preencheram ofícios particulares na teocracia e a pessoa que estava no oficio necessitava de energia do Espírito para seu trabalho oficial. O símbolo para esta outorga oficial do Espírito era a unção com óleo6.

Citando João 14.16,17 Ladd finaliza afirmativamente dizendo que esse privilégio é agora de todo o povo de Deus, não somente de alguns líderes oficiais.
O leitor atento poderia argumentar que Ureta ao citar Paulo força o texto (2ª Coríntios 1.21) que evidentemente não faz referencia a unção comum a todos os cristãos. Clines7 comentando o versículo considera que a qualificação de Silas, Timóteo e do próprio Paulo para um ministério cristão especifico (no caso de Paulo o apostolado) é que está em questão. Entretanto diferente da visão que deficientemente se adota enfatizando uma doutrina do Espírito que exclui a unção irrestrita a todo cristão não se processa na linguagem paulina, nela em especial, o Espírito é pessoa poderosa, transcendente e ativa que habita em todos os crentes e os move (Romanos 8.9,11, 14; 1ª Coríntios 3.16; 6.19; Gálatas 5.16,18), é derramado sobre eles (Romanos 5.5), é bebido por todos eles que os enche (1ª Coríntios 12.13; Efésios 5.18).
Conquanto Paulo se considere ungido, ‘feito participante da esfera divina’ e ‘capacitado com poder do céu’ (2ª Coríntios 1.1; 3.6), sua unção nunca é apresentada em detrimento de outros cristãos, na passagem de 2ª Coríntios 1.21, Paulo se mostra confiável e constante, pela graça que também lhe alcançou, a um grupo rebelde que não lhe reconhecia. Mesmo ali ‘sua autoridade básica se origina do evangelho que ele recebeu a missão de anunciar, não do direito de sua missão em si’8. O apóstolo bem entendeu que qualquer pensamento ou prática diferente disso impossibilitaria o ‘espaço que permita que o povo de Deus funcione como um sacerdócio, cada um trazendo seus dons a Deus e um ao outro mutuamente’9 (1ª Coríntios 12.1-31). 
Assim não se pode equivocadamente enfatizar apenas o aspecto veterotestamentario da unção onde certamente o ‘Espírito dotou certas pessoas, porque elas preencheram ofícios particulares na teocracia e a pessoa que estava no oficio necessitava de energia do Espírito para seu trabalho oficial’ por ser um enfoque reduzido e potencialmente alienante; Brunotte10 tratando do verbete Ungir destaca que no NT a unção também consistia em cuidado do corpo (Mateus 6.17), sinal de honra a um hóspede (Lucas 7.38,46; João 11.2; 12.3); honra aos mortos (Marcos 16.1); ação curativa (Marcos 6.13; Tiago 5.14). Müller, abordando o mesmo verbete e evocando seu sentido religioso e simbólico propõe que no NT a ‘unção é metáfora para a outorga do Espírito Santo, de poder especial, de uma comissão divina... Os cristãos (todos eles), ao serem ungidos, são feitos membros legítimos da promessa da aliança’.   
Pedro respondendo a indagação de alguns judeus bem se expressou dizendo: ‘Abandonem o pecado, voltem para Deus, e cada um de vocês seja imerso pela autoridade de Yeshua, o Messias, para o perdão de seus pecados, e vocês receberão o dom do Ruach Hakodesh! Porque a promessa é para vocês, para seus filhos e para todos os que estão longe – para todos quantos Adonai, nosso Deus, chamar!’ (Atos 2.38,39 – Novo Testamento Judaico). A dádiva do Espírito não se restringe a alguma ordem de ‘especiais’, é certo que a atribuição dos dons do Espírito é circunscrita ao seu desejo pessoal (1ª Coríntios 12.11), contudo os dons não criam uma divisão espiritual de inferiores e superior dentro do corpo de Cristo. Paulo em bela expressão afirma que sujeição opressiva nada tem haver com o Espírito do Senhor (2ª Coríntios 3.17).
Acirrada e assanhada a ‘unção dos especiais’ grassa uma vez que não distinguimos claramente os princípios hermenêuticos associados com a Reforma. O que vemos é uma interpretação ‘altamente “espiritualizante” das Escrituras’, principalmente do AT, que não respeita o sentido claro, simples e evidente das Escrituras e seu caráter histórico. Bem se compreende o desassossego de Erasmus, um católico, percebendo os problemas decorrentes de uma leitura bíblica que não alcançava ou desprezava o seu sentido histórico, literal e original. Do livre exame (precioso princípio reformado) desatinamos para a livre interpretação sempre pessoal, subjetiva e aleatória. Os reformadores sempre levaram em consideração o que havia de melhor na tradição exegética da igreja antiga. Quanto a nós, parece que sempre queremos uma nova instrução revelada de preferência a algum ungido especial que está fazendo proezas. A expressão ‘Sem Ele nada podemos fazer’ aplica-se ao super ungido e o que vemos são impérios pessoais, construídos sobre a crendice supersticiosa de broncos persuadidos de que podem comprar não apenas todas as bênçãos e prazeres desta vida, como também o céu, depois da morte, e, por puro amor ao lucro imundo, seus ungidos encorajam-nos em seus erros. Quorsum haec tam putida tendunt?       













  1. ERASMO, D. Elogio da Loucura. Os Grandes Clássicos da Literatura. Volume III. São Paulo/SP: Editora Novo Horizonte S/A. pg 108.

  1. DRIVER, J. Contra a Corrente. Ensaios de Eclesiologia Radical. Campinas/SP: Editora Cristã Unida, 1994. pg 46.

  1. YAMABUCHI, A K. Uma análise do Movimento G-12. Reflexões de um Pastor Batista. In Rumo e Prumo. 4ª edição. Publicação da CBESP e da OPBB-SP: 2006. pg 117.

  1. URETA, F. Elementos de Teologia Cristã. Rio de Janeiro: JUERP, 1995. pg 50.

  1. EICHRODT, W. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2004. pg 10.

  1. LADD, G E. Teologia do Novo Testamento. 1ª edição - São Paulo: Exodus, 1997. pg 279, 280.

  1. CLINES, D J A. 2ª Coríntios. In: Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2009. pg 1932.     

  1. HAWTHORNE, G F; MARTIN, R P; REID, D G; Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

  1. FEE, G D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. Campinas/SP: Editora United Press, 1997. pg 208.

  1. BRUNOTTE, W; MÜLLER, D. “Ungir”. In: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2ª edição. São Paulo: Vida Nova, 2000. pg 2568.

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